A ESPREITA_VIT

Ariane era uma adolescente que tinha o costume de ir à casa da avó todas as tardes e lá permanecia até o início da noite. Não gostava de se demorar demais porque tinha medo de voltar sozinha pra casa. Não que a distância fosse muita, mas o medo acabava lhe tomando conta nessas horas mais escuras. E entre todos os medos possíveis, o que realmente lhe tirava a paz eram extraterrestres.

Naquele dia acabou ficando um pouco mais. Despediu-se da avó e saiu. Mal colocou o pé fora da varanda já sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. Pare com isso, menina, pensou consigo mesma. Não há nada que temer e quanto mais você pensar nessas coisas, mais medo terá delas. Respirou fundo e seguiu em frente. Passou pelo pequeno portão e continuou na direção de casa. A distância não devia passar de 200 metros, mas naquela noite de lua nova parecia uma eternidade. Ascendeu a lanterna que sempre levava consigo para iluminar a estrada de terra.

Mal dera os primeiros passos, ouviu um barulho nos arbustos do lado direito. Por instinto, virou a lanterna rapidamente naquela direção, mas não havia nada. Nem mesmo as plantas se moviam. Deve ser coisa da minha cabeça. A gente acaba imaginando ouvir e até vê coisas quando está com medo. De qualquer forma, prometeu a si mesma que da próxima vez não iria mais virar a lanterna. Sabe-se lá com o que posso me deparar.

Apertou o passo, mas a sensação de olhos a lhe seguir permaneceu por todo o caminho. Tentava se convencer de que tudo não passavam de pensamentos bobos. Mas a impressão que tinha era muito mais real. Quase podia sentir uma respiração em seu pescoço. Começou a pronunciar algumas orações em silêncio. Apertou a lanterna com força entre as mãos, que agora já haviam começado a suar. Estava toda arrepiada e com a respiração ofegante.

mais uma vez tentou se acalmar. Respirar daquele jeito era um indicativo de que estava com medo. Se for um animal, ele pode reconhecer isso e aproveitar para atacar. Mas que animal? Não existe nada aí. É só esse meu medo tolo, me pregando uma peça mais uma vez. Novamente ouviu um barulho nas plantas. Apertou ainda mais a lanterna. Manteve o passo apresado e os olhos fixos no caminho à sua frente. Vultos se moviam ao seu lado. Sabia que era sua visão periférica que lhe pregava outra peça.

Estava quase na ponte próxima ao pequeno riacho. Não mais que 50m separavam Ariane de sua casa, onde finalmente estaria segura. O capim alto que rodeava o fio de água fez um barulho muito mais forte e evidente. Dessa fez ela sabia que não poderia ser um engano. Realmente havia algo ali. Virou a lanterna para lá e tudo parecia calmo. Olhava aquelas plantas, rezando para que nada visse. Provavelmente era algum pássaro que havia se assustado com ela. Estava retornando o foco da lanterna para a estrada quando viu, de relance, um vulto mais afastado em pé no meio do matagal. Soltou um grito e deixou a lanterna cair.

Lágrimas quase escaparam dos olhos. As mãos tremiam e os músculos pareciam não conseguir reagir. Pensou em correr e deixar a lanterna pra trás, mas corria o risco de, no desespero, acabar caindo da ponte. Abaixou-se tateando o chão, mas mantendo os olhos no mato à sua frente. Sentir-se naquela posição tão frágil e desprevenida só a fez sentir ainda mais medo. Suas mãos só encontravam as pedras no meio da estrada. Virou a cabeça para o chão.

Mesmo assim era difícil identificar o que poderia ser sem a lanterna. Era um objeto muito pequeno e não conseguia ver quase nada no breu em que estava. Finalmente conseguiu diferenciar o objeto dos pedregulhos. Mal havia colocado a lanterna em suas mãos, ouviu um novo barulho. Agora muito mais perto. Dessa vez as lágrimas vieram sem controle. Iluminou as plantas que lhe cercavam com as mãos totalmente trêmulas, mas dessa vez não viu nada. Levantou-se e andou o mais rápido que pôde. Os músculos de sua canela começaram a doer. Pensava em olhar para trás, para certificar-se de que não estava sendo seguida, mas tinha medo do que poderia encontrar. Alcançou a ponte. Abaixo, um estrondo na água fez com que Ariane começasse a correr. Já não importava se aquilo poderia atrair ainda mais o que a espreitava. Quando gotas d’água espirraram em suas pernas, não restavam mais dúvidas. Realmente havia algo ali. E parecia estar perseguindo-a. Tinha certeza de que nunca havia conseguido correr tanto quanto naquele momento.

Embaixo da ponte aquilo se debatia, na tentativa de nadar. Com muito esforço, conseguiu sair da água e se esgueirou novamente pelo mato. Ariane olhou rapidamente para trás e, embora não visse o que era, conseguia ver o mato se mexendo rapidamente. Abriu o portão de casa e entrou desesperada pelo quintal cheio de folhas secas, caídas das árvores do pomar. Agora a criatura já deixara o capim alto, mas ela podia ver os galhos dos arbustos se balançando, mais perto de sua casa. Com as mãos ainda trêmulas, era difícil abrir a porta. A chave era a certa, mas parecia não querer encaixar na fechadura de forma alguma.

O som que agora ouvia era de folhas sendo esmagadas. Estava bem à suas costas. No quintal. Finalmente a fechadura girou. Entrou rapidamente em casa. Trancou a porta e começou a chorar compulsivamente, com as costas encostadas na parede. Sentou-se ali no chão mesmo. Pensou em olhar por alguma fresta, mas o que veria? Preferiu se levantar e ir para sua cama. Deitada, não conseguia parar de pensar no que acontecera. Sabia que era real. Sons poderiam ser engano e vultos apenas uma confusão causada pela escuridão. Mas o conjunto de eventos não deixava dúvidas. Achou melhor não pensar naquilo. Já havia passado.

Do lado de fora, sentado no galho de uma laranjeira estava o causador de toda aquela confusão. As costas encostadas no tronco e as pernas penduradas. Água pingava de seus pés. Sentia muito frio, por ter caído no riacho àquela hora. As costelas doíam, provavelmente por ter batido em alguma pedra enquanto se debatia. A mão era única parte quente do corpo, devido ao sangue que escorria de seu cotovelo. Teve sorte de não ter quebrado nada ao cair do galho naqueles arbustos. Pulou da árvore e voltou para a mata. Estava cansado e machucado. Ia precisar de uma boa noite de sono para recuperar as forças. Mancava, mas no dia seguinte com certeza a dor seria muito maior.

ASSARIEIRAAAAAAAAAAAAAAAA