CAPA_AESPREITA2

Já estava exausto e faminto. O dia todo havia percorrido aquelas terras e nenhuma investida havia sido certeira. Já era tarde e a escuridão tomava conta de tudo à sua volta. Era lua nova e em meio aos arbustos era praticamente impossível enxergar algo. O mais provável é que se deparasse com alguma serpente e o dia terminasse ainda pior. Mesmo com a barriga roncando, o cansaço falava mais alto e já se preparava para buscar algum abrigo e dormir.

Entrou em uma vegetação mais rala que parecia um bom lugar para passar a noite. Deu um passo e sentiu um graveto quebrar-se sob seu pé. Sobre a copa dos arbustos viu uma luz passar alta. Aquilo não era normal e, por instinto, abaixou-se rapidamente. A luz ainda rondava a vegetação à sua volta. A respiração se tornou mais compassada. Encolhido no chão sobre as folhas secas, o medo lhe tomou conta. Finalmente a luz cessou e ele pôde se levantar novamente. Olhou na direção de onde aquilo teria surgido. Avistou uma casa à beira de uma pequena estrada de terra.

Com medo do que pudesse haver naquela estranha construção recuou vagarosamente, tomando todo o cuidado para não quebrar mais nenhum graveto. Dessa vez poderia não conseguir se esconder tão bem daquela luz. Acabou se afundando mais na vegetação, mantendo uma distância segura da estrada. Mas, mesmo com todo cuidado era impossível que não fizesse nenhum barulho. Olhou para o lado e percebeu a estranha luz. Agora se movia ao longo da estrada. O pavor apoderou-se dele de vez. Seus instintos se dividiam em permanecer parado ou sair em disparada. Mas optou por não fazer nenhuma das duas coisas. Manteve o passo cauteloso, seguindo ao lado daquela estranha luz.De repente a vegetação arbustiva deu lugar a um denso dossel de capim alto. Seria bom para se manter escondido. Por outro, assim que penetrou no mato percebeu que seria simplesmente impossível não fazer nenhum ruído. Parou um instante. A luz virou-se em direção ao matagal, mas acabou indo para o outro lado. Permaneceu parado. Talvez fosse melhor esperar que ela seguisse em frente. Mas vindo da direção da luz ouviu um grito e o som de algo caindo no chão.

Seu coração disparou e suas pupilas dilataram. Queria correr, mas suas pernas permaneciam imóveis. Ali estava muito mais vulnerável a qualquer ataque. Viu o feixe luminoso voltado para o chão. Mas havia algo mais. Por detrás daquela claridade alguma coisa parecia se mover. Conseguia ouvir ruídos de algo percorrendo o chão. Parecia arranhar a terra. O frio lhe percorreu todo o corpo. A luz se moveu novamente, ainda próxima ao chão. A única coisa que conseguiu fazer foi se abaixar novamente.

Será que teria sido visto dessa vez? Esperou que a escuridão tomasse o ambiente novamente e continuou o caminho sorrateiramente. Ainda via a estrada sendo iluminada um pouco à sua frente. Agora tinha certeza. Havia realmente alguma criatura junto à luz. Ficou tão tomado de medo daquilo que não percebeu o barranco que se abria à sua frente. Desabou em um baque seco, caindo no fundo de um pequeno riacho. A primeira coisa que sentiu foi uma forte dor em uma costela. A água estava completamente gelada, o que só aumentava a dor que sentia.

Quase se afogou naquele riacho raso, mas o desespero era enorme. Quando enfim conseguiu erguer a cabeça, ouviu um som ritmado, logo acima da ponte ao seu lado. O desespero apoderou-se de vez. Se debateu na tentativa de se erguer o mais rápido possível. Acabou cortando o cotovelo em um pedregulho pontudo escondido no fundo do riacho pela escuridão. O som, parecido com um tambor ecoava em sua cabeça. Agora não adiantava mais ser discreto. O melhor a fazer era correr. Correr o máximo que pudesse. A princípio não conseguia ver muita coisa. Os olhos ardiam por causa do barro que havia entrado acidentalmente.

Por sorte, o outro lado do riacho era menos acidentado e não teve muita dificuldade em subir. Adentrou o mato cerrado desesperado. Não conseguia mais ver a luz, mas também não via muita coisa além de alguns metros. Mal conseguia manter os olhos abertos com todo aquele ardor. Começou a pendurar-se nos galhos dos arbustos, mas aquilo se tornou muito exaustivo. Se não estivesse tão cansado seria o melhor a fazer, mas seus ossos doíam demasiadamente por causa da queda. Com os olhos quase fechados percebeu que havia saído do mato e estava no meio da estrada. Agora era uma presa fácil. Teria que sair logo dali. Virou-se à esquerda e sentiu folhas secas quebrarem-se sob seus pés. A visão começou a clarear um pouco e viu bem a sua frente aquele vulto. Era a mesma criatura que estava na estrada. Ali, parada na varanda de uma casa. De nada adiantou correr tanto, pois acabara indo direto para sua destruição.

Derrapou nas folhas secas quando parou bruscamente. Enquanto ainda tentava retomar o equilíbrio, virou-se e correu máximo que pôde na direção contrária. Não ousava olhar para trás. O que poderia estar vindo atrás de si? A luz ou a coisa. Ou ambos. Acabou entrando em um local limpo, mas com várias árvores. Agarrou-se ao primeiro galho que reconheceu. Talvez aquilo não o visse lá no alto. Encostou as costas no tronco e deixou suas pernas penderem.

Seu coração doía de tão rápido que batia. A respiração vagarosamente voltou ao normal. Permaneceu ali por alguns instantes até certificar-se de que não havia nada em volta. O frio começou a tomar conta de seu corpo. A água estava muito gelada. Saltou do galho e sentiu todo o corpo revirar de dor. Suspirou e seguiu em frente, de volta ao arvoredo. Olhando para trás, vez ou outra, para certificar-se de que nada o estava seguindo.

Dentro da casa a luz já tinha se apagado. Mas a criatura que caminhava na estrada junto com ela encontrava-se sentada ao chão, grudada na porta. Levantou-se calmamente, deu uma respirada funda e foi para o quarto. Sentou-se devagar na cama, puxou o cobertor e fechou os olhos. Em breve adormeceria.

ASSARIEIRAAAAAAAAAAAAAAAA