CR2

ELE E ELA

Ele é magro, moreno, alto, tem olhos azuis. Ela é solitária. Ele gosta de ouvir músicas clássicas, cantar embaixo do chuveiro, dançar valsa. Ela é órfã. Ele, por fim, é calmo, paciente, egoísta, vaidoso, indeciso, e fala muito. Ela aperta cada vez mais seu travesseiro contra seu peito quente; ela precisa de atenção.

Ele vive num pequeno apartamento, sozinho. Nunca amou ninguém de verdade e costuma dizer que as mulheres de hoje não possuem mais o mesmo sentimentalismo de antigamente. Ele adora o passado e as coisas velhas. Ele tem uma gata, sua única companheira, que só acostuma aparecer de vez em quando, quando não está no cio. Ela se chama Sekmeth, nome da antiga deusa egípcia com rosto de felino. Ele tem uma loja de antigüidades e continua com os negócios de seus pais. Ele não vende muito, e na verdade tudo que não se encontra na loja, está na casa dele, como um antigo pendulo francês do século XVI. Ele é seu melhor cliente. Ele acorda todos os dias às cinco e meia em ponto, para chegar ao trabalho mais cedo, às sete horas e sair às seis e meia, mesmo que o horário de funcionamento indique: “Aberto de segunda à sexta das sete horas às oito da noite.” Mas como todos os dias, ninguém abrira a porta de sua loja. Ele não ouvira três notas agudas anunciando a chegada do cliente e, também não chegara a perguntar: “Em que posso lhe ajudar?”. O seu dia, na verdade, fora igual a todos os outros dias, com uma única exceção, o preço de um diário de uma das papelarias na frente da qual passava todos os dias tinha baixado. Passou de oito libras para sete libras e noventa cents.
Ficou parado na frente da vitrine, contemplando o preço. Naquele momento, três perguntas o atormentavam: Eu compro? Não compro? O que faço? Ele temera que ao manter um diário de bordo, a situação tornara-se enjoativa, já que sua vida é bastante monótona. De outro lado, ele acreditou que comprando um diário, sua vida mudaria. O seu dia de hoje não seria igual ao de ontem. Esta noite, ele inauguraria a história de sua vida. Ele se decidiu.

Ela mora sozinha desde criança num centro de pesquisa. Na verdade, não chegou a conhecer bem seus pais. Ela foi criada por robôs. Aprendeu a falar e a escrever observando os gestos dessas máquinas. Ela vive na lua, sempre na lua. Ela não sabe o que se passa fora de seu mundo. Ela não imagina o que é a raça humana. Ela não sabe o que é a Terra. Ela não conhece os sentimentos de amor ou amizade. Ela nem ao menos sabe o que é ser amada. Ela não sabe o que são sentimentos ou emoções. Ela não sabe nem o seu próprio nome. Ela sabe rir, mas não imagina o que é alegria. Ela sabe ficar distraída sem saber sonhar ou imaginar. Ela sabe gritar sem pensar na dor ou no alívio. Ela sabe enfim que cada vez mais seu corpo cresce, seus cabelos crescem, seu corpo se modifica, mas não teme a velhice por não conhecê-la. Ela gosta de acordar depois de ter dormido horas e horas. Ela gosta de olhar pela janela de seu quarto e ver vários pontos brilhando num céu escuro. Ela gosta de fixar aquela imensa bola azul que voa no vácuo. Ela gosta de caminhar pelo centro. Ela gosta do jardim artificial e dos animais que vivem por lá. Ela gosta de deitar-se na grama e ficar ouvindo o canto dos pássaros. Ela não gosta do escuro. Tem medo dos bichos com dentes afiados. Tem medo de sangue. Ela não gosta das doenças. Ela gosta de uma das salas do centro, uma bem gigante, em forma de círculo na qual se encontram enormes aquários. Ela cuida dos aquários com uma atenção toda especial. Ela não sabe exatamente o que existe dentro dessas caixas de vidro, só distingue pequenas esferas flutuando num tipo de líquido opaco. Ela também reconhece na parede de um desses aquários uma inscrição desgastada pelo tempo: “Estamos aqui”, seguido de uma seta apontando para uma dessas bolinhas. Uma esfera acinzentada. Ao lado dessa, uma azul, uma que a cativara igual à que aparece pela janela de seu quarto, mas nunca até hoje, ela havia feito a ligação. Nem nunca cogitara a respeito.

Ela queria definitivamente nadar no meio dessas esferas. Ela queria só por um instante sentir-se diferente. Ela queria só por um instante sair desse centro. Ela já estava na beira no aquário, prestes a se jogar em direção à esfera azul. É lá que ela queria ir. É lá que ela queria acordar.

AssDam