CR

– É que eu não acho boa ideia continuar com isso, Ivan! – explicou Cecília enquanto via o próprio reflexo do seu rosto moreno no retrovisor do carro salpicado pela garoa.

– Mas eu não quero te deixar, você sabe muito bem o quanto o meu casamento é uma merda! – respondeu ele enquanto dirigia olhando para a estrada cinza como o céu da manhã de segunda-feira através de seus óculos escuros. Segurava firme o volante com os músculos rigidamente duros e inseguros.

– Olha, já estamos há quase um ano nisso! Sei que cedi às suas insistências, me sinto mal por isso! Te peço desculpas até, não queria de alguma forma te dar esperanças, mas você é casado, não entende isso?

– Eu já te expliquei que as coisas não são simples assim pra mim! Não posso separar, eu perderia a casa, o carro, trabalhei a vida toda pra isso! Acha justo? – perguntou.

– Mas o que começa errado não tem com dar certo! – respondeu Cecília deslizando suas mãos pelas coxas que vestiam uma calça jeans desbotada.

– Eu me sinto muito sozinho, você tem preenchido este espaço, sabe? Já te contei isso! – disse ele enquanto fazia a curva à esquerda da rodovia e com lamento na voz.

– Eu sei Ivan, eu sei! Deus sabe que eu sei!

– E você vai fazer isso comigo?

– Eu não vejo outra forma, o seu ciúmes também, eu não me sinto bem com alguém me controlando, isso tem me sufocado! – O carro parou no sinal vermelho, estava há dois carros da faixa de pedestre, onde passavam pessoas sem rosto cobertas com guarda-chuvas.

– Abra o porta-luvas, tem um estojo aí, pega pra mim! – pediu Ivan enquanto ajeitava seu cabelo grisalho. Ela puxou um estojo de couro preto, com um zíper que o fechava. Ela o abriu, onde tinham vários DVDs, com nomes escritos com uma caneta vermelha sobre suas superfícies, nomes femininos. Ele a mandou tirar um enquanto atendia o celular. – Então, eu vou demorar um pouco hoje, pegue a Silvia na escola, diga que amanhã eu assisto ao filme do urso com ela! – dizia Ivan ao celular. – Não te interessa, ok? – Não comece com perguntas idiotas, eu não tenho saco pra isso! – e encerrou a ligação, desligando o celular. Pegou o DVD da mão de Cecília e inseriu no aparelho, após engatar a primeira marcha e acelerar.

– Você errou a entrada, Ivan, minha casa fica pra lá! – disse Cecília enquanto o filme começava. Era um lugar escuro, com somente uma lâmpada cheia de moscas em volta balançando com a luz intermitente. Ela tinha longos cabelos castanhos que cobriam seu rosto e suas lagrimas, enquanto chorava. Suas canelas eram finas estavam presas à cadeira, assim como seus braços. – Que filme é esse? – perguntou Cecilia, enquanto ele se mantinha inerte ao volante em silêncio. “Me deixe ir embora”gritava a garota soluçando, “Eu não vou te deixar sozinho”. – Por que você está me mostrando isso, Ivan? Que brincadeira é essa?

– “Você acha que é assim? Me deixar e  ficar por isso mesmo?”- gritou a voz de um homem. O carro começava a pegar mais velocidade quando Ivan surge na tela, ao lado da garota, com menos cabelos brancos e sem camisa, apenas com uma calça preta. Seus olhos verdes olharam para a câmera rapidamente quando desferiu o primeiro soco na garota.  Cecília olhava para o rosto dele fixado na estrada e para o mesmo na tela, que começava a ter seus punhos manchados com o sangue da garota que descia pelo seu vestido vermelho misturando-se a urina. “Eu pensei que você não me deixaria sozinho”- gritou o Ivan do vídeo raivosamente próximo do ouvido da garota ensanguentada. “Mas eu sei um jeito de que você jamais me deixará” e saiu do alcance da câmera, ficando somente a garota mexendo a boca como se estivesse falando alguma coisa. Cecília tremia, com o medo dominando seu corpo assim como a empatia pela garota amarrada. Percebeu logo o quanto que provavelmente ambas tinham em comum, que talvez ela também tenha tido a mesma conversa que acabara de encerrar com Ivan neste mesmo carro, as mesmas queixas, os mesmos termos, enquanto olhava para baixo e via cada disco que estava guardado no estojo. Luciana, Cíntia, Rita, eram nomes comuns, mas misturavam-se em sua cabeça tornando-se indecoráveis, fazendo ela esquecê-los quando fechou o zíper do estojo. Suas lágrimas começaram a cair, junto à respiração que ficava mais forte, quando começou a ouvir um grito constante e histérico da garota do vídeo ao ver Ivan de volta com uma faca na mão direita. Cecília fechou os olhos quando ele passou a lâmina pela garganta macia da garota, o corpo dela definhava lentamente em silêncio, até receber mais duas facadas no peito e cair inerte, ainda amarrado a cadeira, com o sangue escorrendo banhando o corpo dela e o chão, encerrando o vídeo deixando a tela do aparelho azul. O carro seguiu adiante pela garoa em meio a tantos outros, com o silêncio em seu interior e  o destino indefinido.

ASSBRANCO