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Eduardo estava concentrado nos desenhos que havia passado o dia todo fazendo. Seus olhos estavam pesados e as mãos quase não respondiam mais ao seu comando, mas a ansiedade de ver tudo terminado era muito grande e simplesmente se esquecera da hora. Afundado em meio aos papeis e lápis, mal tivera se levantado para comer alguma coisa.

Costumava passar as férias inteiras no sítio da avó desde criança, embora antes fosse mais divertido. Era um casarão antigo, em estilo colonial, afundado entre montanhas. Quando pequeno costumava morrer de medo de dormir no lugar. O teto velho que abrigava uma família de morcegos, o assoalho de madeira que fazia barulho a cada passo, o relógio de parede que tocava a cada hora, tudo lhe tirava o sono. Mas o pior era o silêncio à noite. Parecia que até as mariposas do lado de fora podiam ser ouvidas. Porém era justamente esse silêncio que buscava nesses dias. Agora, no final da adolescência, já não tinha mais a mesma graça de buscar brincadeiras. Por isso, levou todos seus materiais de desenho para passar o tempo lá. Ouviu a porta da sala de jantar se abrir e ao se virar deparou-se com o tio Pedro.

Esses estão ficando realmente muito bons. Você devia seguir em alguma coisa relacionada a desenho, Edu – disse o tio folheando os outros desenhos sobre a mesa.
É só um passatempo, tio. Acho que vou acabar fazendo vestibular pra algum curso de Exatas, mas ainda não sei.
– Mas é um passatempo que você desempenha muito bem então
– completou o tio sorrindo – você poderia pensar nisso de outra forma. E esse que você está fazendo, o que é?
– Nada especial, apenas uma garota no meio da rua.
– Ela parece um pouco triste.
– É só por causa dessa rosa nas mãos. Talvez ser uma noite chuvosa também ajuda a passar essa ideia.
-E quem seria essa moça. Alguém em especial lhe inspirando? Será que próxima vez essa musa também virá pra cá com você?

Ninguém demais. Eu sonhei com algo parecido com isso uma noite e resolvi desenhar. Só isso. Mas estou mais preocupado com o cenário ao fundo. Eu quero dar um tom mais real às casas em torno dessa garota.
– Está ficando realmente muito bom. Me mostre quanto tiver terminado. Vou me deitar agora. Boa noite.
– Boa noite, tio. Daqui a pouco eu vou também.

Eduardo ficou desenhando mais um pouco, mas foi vencido pelo sono e decidiu se deitar. Apagou as luzes e fechou a janela da sala. Mesmo com o calor que estava fazendo era melhor garantir que não entrasse nenhum pássaro na casa. Entrou na porta da direita, pois seu tio estava dormindo no quarto ao lado. Já estava quase adormecendo quando viu a luz da sala se acender, pela fresta da porta do seu quarto.

Ah, tio Pedro, já passou da época em que você me assustava com essas brincadeiras, pensou consigo. Vou ter que dizer pessoalmente ao senhor que isso não funciona mais comigo? Sentado na cama, abaixou-se sobre os joelhos e observou o tio parado na frente da janela olhando seus desenhos. Quando puxou o cobertor e começou a procurar o chinelo no chão com os pés, a luz se apagou. Talvez o tio estivesse apenas observando seus desenhos realmente.

Deitou-se de novo e viu a luz se acender de novo. Novamente observou o tio parado ao lado da janela com seus desenhos nas mãos. Mais uma vez foi se levantar e a luz se apagou. Já entendi tio, a ideia é me assustar mesmo. Dessa vez você se superou na brincadeira, mas ainda não vai funcionar. Seria melhor ignorar a brincadeira e dormir.

Na terceira vez que a luz se acendeu Eduardo não se moveu. Deixaria o tio continuar com aquela brincadeira até que se cansasse. Talvez o tio inventasse algo mais na tentativa de assustar o sobrinho. Só o fato de ter colocado um chapéu já valia o esforço. Mas essa fase de sentir medo passara há algum tempo.

A luz permaneceu acesa. Os olhos começaram a pesar quando Eduardo ouviu o tio se mexendo na cama ao lado. Acho que desistiu, hein tio. Dessa vez Eduardo tinha vencido. Sorriu em silêncio pensando no desapontamento do tio em não ter conseguido dar um susto no sobrinho dessa vez. Mas acabou esquecendo a luz acesa, melhor eu apagar porque senão a vó pode ficar brava comigo amanhã.

Se levantou e puxou a porta. A luz se apagou imediatamente, mas antes Eduardo ainda conseguiu ver o vulto na janela. Com tudo escuro não via mais nada. Aquilo era estranho, pois além dele e o tio só havia a avó na casa. Voltou ao quarto e deitou-se tentando raciocinar tudo aquilo. A luz se acendeu mais uma vez. A inquietação lhe tomou conta. O tio começou a se remexer no quarto ao lado. Eduardo percebeu que ele também estava inquieto com toda aquela situação. Pelo barulho do quarto, percebeu que dessa vez era o tio que se levantava. Quando ouviu a outra porta se abrir, a luz novamente se apagou.

Quando o tio se deitou mais uma vez e a luz insistentemente se acendeu, Eduardo tossiu para avisar ao tio que ele também não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo. Ouviu o tio começar a falar sozinho, muito rápido. Demorou um pouco para entender que eram orações proferidas. Talvez o tio estivesse lendo a bíblia que havia em seu quarto. Durante mais uns cinco minutos a luz permaneceu acesa. O tio continuou rezando. Enfim, a luz se apagou definitivamente por aquela noite.

Eduardo ainda demorou um pouco para dormir, estava realmente tenso com o ocorrido. Acabou pegando no sono e tendo sonhos muito agonizantes e perturbados. Seus desenhos tinham tomado vida e corriam atrás dele para reclamar dos pequenos defeitos e irregularidades que ele havia deixado.

No outro dia, ele e o tio se entreolharam na mesa do café, mas não tocaram no assunto. Durante os outros dias que permaneceu na casa nada mais aconteceu. Também não voltou a desenhar. Achou melhor aproveitar os dias de Sol. Na véspera de partir de volta para casa foi guardar os desenhos que havia feito naquelas férias. Olhou-os por um momento. Havia sim alguns defeitos, mas estava melhorando. Esses ficaram realmente bons. Acho que meus desenhos nunca me perseguiriam para reclamar das suas imperfeições, afinal. Talvez devesse mesmo pensar em fazer algo relacionado a isso durante o resto da vida.

Parou um instante a mais no último desenho que fizera. A garota com olhar perdido e triste segurava uma rosa nas mãos. Era noite e ela estava sozinha na rua. Chovia e ele reparou em como as gotas de chuva pareciam reais vistas contra a luz do poste. Esse ficou bom mesmo. Olhou como os detalhes dos casebres em torno da garota tinham ficado bons. As roupas penduradas nos varais. O gato preguiçosamente enrolado em uma varanda. Tudo tinha ficado bastante real. Só não se lembrava do momento em que havia colorido a rosa de vermelho. Nem quando havia decidido colocar ao fundo aquele vulto de capa e chapéu.

Arieira