O-Sacrifício-de-Isaac-Caravaggio

João caminhava em sentido oposto ao vento, que estava agressivo e frio, deixando seu rosto gelado e suas mãos roxas. As árvores balançavam inquietas, como um prisioneiro que balança as correntes esperando a sentença e o céu estava com nuvens carregadas, com a lua timidamente escondida por trás delas. O terno cinza que vestia estava levemente sujo com algumas folhas e pedaços de galhos, assim como o do seu filho, o qual segurava firmemente a mão. Caminhava rápido e a passos largos, fazendo o pequeno garoto tropeçar, ralando seu joelho e sujando o terno dele com terra e palha. – Levanta logo, nós não temos muito tempo! – disse enquanto o ajudava a se erguer, puxando bruscamente seu braço franzino para cima, fazendo-o dar um pequeno gemido de dor. – Já estamos quase no monte, preste atenção onde anda! – repreendeu impaciente. João carregava uma lanterna na mão esquerda, que iluminava a trilha por onde andava e tinha em seus bolsos uma venda preta, além de um revolver Taurus calibre 22, que herdara do pai, com o cabo amadeirado e carregada, enfiada na cintura. Não podia voltar atrás, não após o chamado de Deus. Sempre foi uma ovelha fiel desde pequeno e mesmo após sua esposa deixar a igreja, e brigar constantemente por temer que o filho deles se tornasse também um fanático, não desviou de seu caminho e finalmente teria a chance de mostrar toda sua fé e temor para com Ele. Desviava-se dos galhos que ficavam no caminho enquanto a trilha começava a ficar mais íngreme, o que era um sinal de que o topo do monte estava perto. Dava para ouvir o som distante de sirenes e latidos de cães. – Não temos muito tempo, eles já estão chegando! – O garoto começou a trotar, para acompanhar o ritmo do pai, embora estivesse com o rosto cansado e ofegante, sua longa franja loira balançava devido ao vento, atrapalhando sua visão. Subiram por mais alguns minutos e finalmente chegaram ao topo. O chão era de terra e não havia nada além de algumas pequenas rochas ao redor, mas dava para ver toda a cidade abaixo, com luzes atravessando o céu, edifícios iluminados pelas luzes de fim de domingo e uma longa rodovia que a atravessava. O vento estava ainda mais forte e gelado, criando uma pequena manta de poeira fazendo o garoto tossir. – Ajoelha! – ordenou João enquanto tirava a venda do bolso. Envolveu-a no rosto do garoto, afastando sua franja com uma das mãos e deu um pequeno nó na nuca dele. Sacou a arma e a apontou para a cabeça do garoto, que havia parado de ofegar e permanecia ali, em silêncio. – “Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto!” – gritou. Engatilhou o calibre 22, mantendo a mira sem tremer.

– Parado! – gritou uma voz vinda da trilha. João virou o rosto àquela direção, de onde surgiram quatro policiais, três homens e uma mulher, um deles com um Pastor Alemão preso na corrente que latia de modo impaciente. Atrás deles, a mãe do garoto, uma mulher loira e grande, de olhos claros e bochechas rosadas, usando um vestido rosa de seda com desenhos de lírios bordados, jogou-se no chão a chorar, desesperada.

– Fique longe, eu não vou deixar você impedir a vontade de Deus! – respondeu João.

– Solta essa arma! – Preste atenção, você ainda não fez nada, não precisa levar isso adiante! – disse a policial, enquanto começava a aproximar-se lentamente com a arma em punho.

– Eu esperei a vida toda por este momento! Se for a vontade de Deus que ele seja o cordeiro do holocausto, assim será! Se for pra ser diferente de Abraão e Isaac, que seja! – respondeu apontando a arma para a policial.

– Solta meu filho, seu monstro! – gritou a mulher aos prantos.

– Olha o que você está fazendo, larga esta arma e volte pra casa! Sua família está sofrendo!

– Eu não me importo, Paulo foi o maior missionário e não montou família, de que vale família comparada com a experiência divina, você nunca vai entender, sua mundana!

Então, João virou a arma em direção garoto, e ouviu-se um tiro.

A policial abaixou a arma, enquanto ele caia com o braço sangrando e sua arma no chão. Gritava de dor. Os outros policiais correram de encontro ao garoto, afastando-o de João e pegando a arma.

A mãe veio logo em seguida, afastou os policiais e abraçou o garoto, tirando a venda de seus olhos. Beijou sua testa e sorriu, derramando lágrimas no seu rosto, onde uma escorreu até seus lábios, dando a sentir o gosto de sal e dor. Caído, João observa sentado a mancha de sangue aumentando em seu terno, além de algumas gotas escorrerem até a palma da mão. Chorava como a esposa, pela dor do tiro e pelo fracasso que era como ovelha de Deus. Olhou mais uma vez para a trilha, de onde vinham mais alguns policiais, que chegaram depois como reforço e logo em seguida para os outros, com armas apontadas a ele, além da garota, com o celular na mão chamando o SAMU e sorrindo um sorriso materno ao ver a mãe com o filho em segurança. Olhar para sua esposa e filho o fez lembrar a manhã daquele domingo, que amanhecera com o sol radiante, apesar do frio. Sua esposa usando um avental com uma família de ursos estampada, o cheiro de bolo de chocolate vindo do forno e perfumando a casa, o gosto do café que sempre estava amargo, tendo que colocar algumas gotas de adoçante, o chamar do filho, que estava no fim do corredor entre a sala e a cozinha. Ele estava com uma Bíblia embaixo do braço e com os olhos assustados e ansiosos, com um pijama verde sem os chinelos. – O que foi, filho? – perguntou abaixando-se para encará-lo.

– Eu acho que recebi um chamado de Deus, pai!

ASSBRANCO