Quebrada é  um apanhado de contos onde o Renegado Bruno vai desenvolver conflitos Urbanos, se baseando em letras de Rap, Poemas, Citações e em sua própria vivencia.

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Três horas da manhã – Tiro, sirene, e correria, mesmo a essa hora uma multidão já fazia um grande e tumultuado circulo em volta do meu corpo. Eu tinha vinte anos.
‒ Isso mesmo, um tiro bem no meio do peito, aqui é a Av. Brasil, 1200, Ferraz de Vasconcelos, próximo à agência de veículos Carisma Automóveis, vocês têm que chegar depressa, o garoto tá sangrando muito!
Diz-se que quando você está prestes a morrer, toda sua vida passa diante de seus olhos.

Não foi o que aconteceu comigo.

Eu só via uma coisa e uma única coisa até eu realmente vê-la: minha mãe.
Havia uma conhecida no meio do aglomerado, ligou para ela na mesma hora, e com tanto tato quanto um legista após muitos anos de oficio têm para com o defunto disse:
‒ Dona Júlia, seu filho levou um tiro aqui em frente à concessionária. A ambulância já tá a caminho, se quiser ver ele ainda vivo é melhor correr!
Ela chegou o mais rápido que pode, tadinha, não podia andar muito rápido, tinha bursite, fora as constantes dores
na coluna.
‒ Meu filho, oh meu Deus meu filho o que fizeram com você meu anjo? Oh meu Deus o que fizeram com meu anjinho? ‒ Dizia ela enquanto atravessava o isolamento, e empurrava o policial.
O Curioso é que, enquanto minha mãe me chamava de anjo, eu sentia como se meia dúzia deles começassem a levar a minha alma.
Ninguém do bairro nunca teve muito apresso por mim, a maioria das senhoras ao se referirem a minha pessoa diziam:
‒ Aquele vagabundo, e olha que é filho de crente hein.
Quando garoto eu era como qualquer outro, futebol de salão, soltava pipa, corria de valentão e paquerava as garotas bonitas. Mas sempre há um dia em que o Cordeiro em pele de Lobo nos oferece um caminho mais rápido para o “Sonho Americano”, o preço?
sua alma.
‒ Deixa de ser bobo moleque, é só entregar esse pacote lá pro Buiú e te do vintão, se não ta querendo comprar um presente do dia das mães? Então com vinte mangos tu compra o que quiser, vai querer ou não vai?
Eu quis, e quis de novo quando era pra esconder o pacote lá em casa, e quando fiz meu primeiro assalto a mão armada, e também quando tentamos roubar aquela casa de família, mas nesse ai nós fomos pegos. Eu tinha só dezesseis anos, fiquei três meses na Febem más não foi a ultima vez.
De repente minha mãe começou a cantar um hino da harpa cristã:

‒ “Ao findar o labor desta vida
Quando a morte a teu lado chegar,
Que destino há de ter a tua alma?
Qual será no futuro teu lar?” ♪

Nesse momento sim eu já começava a lembrar de algumas coisas, como por exemplo, como minha mãe chorou na minha ultima detenção, fiquei preso quase um ano, e ela se culpava, logo ela que era uma mãe e um pai pra mim, não que eu não tivesse um pai, é só que ele não agia como um.
‒ Já falei que não quero mais esse vagabundo na nossa casa, eu não sustentei um filho pra que todo mundo aponte o dedo na minha cara pra dizer que ele não presta, eu cansei, eu quero ele fora agora!
‒ Mas se a gente expulsar ele só piora a situação, você não vê que ele precisa da gente pra poder se arrumar na vida, ele não é causa sem salvação, o filho da Regina era ainda pior e olha pra ele hoje, não fuma, não bebe e não falta a um culto se quer, já tá
até pregando.
‒ Não quero nem saber, eu quero ele fora, ou eu saio, e se eu sair não conte comigo pra nada, eu não vou ajudar vocês com um misero centavo, eu não vou sustentar bandido, e muito menos vou viver com uma mulher que não sabe criar o próprio filho.

‒ “Meu amigo, hoje tu tens a escolha:
Vida ou morte – qual vais aceitar?
Amanhã pode ser muito tarde:
Hoje Cristo te quer libertar.” ♫

Quando eu finalmente sai eu era outra pessoa, eu estava decidido a seguir como um bandido, só que dessa vez eu realmente queria aquilo, eu não via outra alternativa, eu queria ser como Pablo Escobar ou Fernando Beira Mar, queria a vida do crime, estava seduzido pelo “glamour” mas lá no fundo o que eu realmente queria era a morte!

‒ “Tu procuras a paz neste mundo,
Em prazeres que passam em vão.
Mas, na última hora da vida,
Eles não mais te satisfarão”. ♪

Eu já tinha tudo planejado, eu precisava de uma moto, uma bem veloz, motos são de longe a melhor opção de fuga! Só que eu estava quebrado, então resolvi; primeiro eu roubo a moto, depois eu uso ela para roubar.

‒ “Por acaso tu riste, ó amigo,
Quando ouviste falar de Jesus?
Mas somente Jesus pode dar-te
Salvação pela morte na cruz.” ♪

Reuni os meus melhores amigos pra isso, só gente de confiança, eu não queria erros: Preto, Caíque, Fabinho e a Cacá. Era isso não tinha como dar errado, a Cacá descolou todos os horários e como funciona a concessionária dando em cima de um dos empregados do Seu Oscar, eu e o Preto entramos enquanto o Caíque e o Fabinho davam cobertura, más ai o maldito alarme soou, a Filha da Puta da Cacá jurou que convenceu o imbecil do funcionário a desligar aquela porra.

‒ “Tens manchada tua alma e não podes
Contemplar o semblante de Deus:
Só os crentes de corações limpos
Poderão ter o gozo nos céus.” ♪

Não lembro muito bem essa parte, o Caíque e o Fabinho deram no pé, eu e o Preto saímos numa moto à milhão. De repente do nada já tinha uns coxinha atrás da gente, àquela hora sem ninguém na rua, era a situação perfeita para os filhos da puta atirarem na gente, acertaram a perna do Preto ele caiu com a cara no asfalto, isso quase me derrubou também. Os cana continuaram atrás de mim até que finalmente eu dei de frente com uma barreira, parei com tudo, e me rendi na hora, virei de costas com as mãos na cabeça e o desgraçado me retribuiu com um tiro a queima roupa, a sangue frio.

‒ “Se decides deixar teus pecados,
E entregar tua vida a Jesus,
Trilharás, sim, na última hora
Um caminho brilhante de luz.” ♪

Meu coração havia parado de bater, mas então de repente minha mãe terminou aquele louvor, olhou pra mim e viu uma lagrima rolando no meu rosto. Duma forma que até hoje ninguém consegue explicar os curiosos não conseguiram registrar nenhuma imagem com os malditos celulares.
Eu abri meus olhos, e assim como quando eu nasci, a primeira coisa que eu vi foi minha mãe sorrindo.
Eu havia ganho, uma segunda chance!

Bases:
Projota – A Rezadeira
Louvores da Harpa Cristã – A última hora

 

Ass_Bruno@bruno_renegados