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O Brasil não foi mais o mesmo desde os acontecimentos em São Paulo, precisamente na Vila Olímpia. Mas como todo bom brasileiro, tudo é facilmente esquecido com festivais e aumento dos feriados nacionais. Engraçado ver como mesmo com toda festa, as próprias autoridades esqueceram que não teriam suporte para investigar o que tinha sido aquilo ou sua causa. O foco era manter e disfarçar um país com ótima segurança e o país certo de entretenimento.
E não só autoridades ficaram nessa vibe. As pessoas… Bem, as pessoas. Todas continuavam simplesmente suas vidas pensando no lucro pessoal em curto prazo, ignorando o evento e pensando sempre no próprio sucesso, e dane-se de que forma.
Pedro estava animado. Já era sua quarta reunião de treinamento em uma organização independente, e ele não poderia atrasar, afinal só depende dele. O investimento de 4 mil reais não poderia ser jogado fora. Banho tomado, perfume ao ponto, la vai Pedro determinado e focado, dirigindo e respeitando todos os semáforos de trânsito. Chegando na casa da anfitriã, já percebe que vai ser mais um daqueles dias importantes, muitos carros na frente da residência e pela dificuldade que foi deixar o carro dois quarteirões depois. Ao entrar na casa, não acreditava no número de pessoas ali dentro e nem reparou que muito dos móveis da sala não estavam lá, apenas um projetor no teto, a parede branca, várias cadeiras e um pedestal com microfone.
Depois que todos tomaram seus cafés mediocres, todos se sentaram ansiosos pela anfitriã e suas palavras de orientadora sobre o comportamento do público com seus produtos. Todos a admiravam como se fosse uma celebridade norte-americana das mais tops. E com Pedro não era diferente. Ele nem chegava a anotar nada do que dizia e se orgulhava da sua forma de conseguir decorar tudo isso. Eis que uma pequena ruiva, de óculos escuros e lábios acentuados pelo batom vermelho, entra na sala e acaba esbarrando em Pedro, que acaba derrubando seu celular no chão. Quando ele se levanta se perguntando como ele o deixara cair, sendo que estava em seu bolso. Enfim, após esses segundos de distração, ele volta sua atenção a palestra e percebe que alguma coisa está errada. A anfitriã está com um olhar diferente, e o som que sai da sua boca é como um gemido sufocado de uma garganta cortada, misturado com o zumbido de insetos, no qual entravam pelos ouvidos de seus companheiros que, com celular em mãos, náo paravam de mandar SMS para todos os contatos da lista pessoal. Em panico, Pedro acaba chamando atenção da anfitriã, que apenas o olha gritando e se debatendo. No meio do desespero, Pedro repara que a anfitriã estava reparando na sua reação, com ódio, desprezo e curiosidade, afinal, até o momento, nenhuma pessoa normal tinha acordado de um transe. Um erro tolo de confiança, que seu orgulho abraçava de um jeito peculiar. No momento exato da única certeza da vida, seus olhos de pânico se desviam para os cabelos ruivos, e repara que os olhos claros estão fixos na presa. Em segundos, a pequena ruiva consegue passar por todos presentes e acerta um soco que desfigura a face da anfitriã, que logo em seguida faz um movimento que nem um corpo de porte esportivo conseguiria fazer. Pedro apenas ignora todo barulho e sangue dos seus colegas que eram acertados pela briga. Sorte dele quando os amigos mais próximos da anfitriã entraram correndo, depois de arrebentar a porta, e vão sem pensar para cima da causadora daquele caos.
– Meu Deus…. Tenho que sair daqui! – Pedro não tirava isso da cabeça.
Já fora da casa, algo o assusta mais ainda do que toda confusão lá dentro. O silêncio. Seu medo não deixa olhar ou sequer se levantar do jeito patético que se encontra no chão. Quando do nada, sons de passos começam a ficar mais altos. Seus olhos se concentram nos pés da garota que havia esbarrado lá dentro.
– Você deveria sair daqui. A polícia vai chegar logo. – A ruiva vai embora calmamente, com a cabeça da anfitriã na mão.
Era de se admirar a beleza sutil banhada em tons de sangue no seu corpo. Voltando a consciência, correu para o carro e saiu sem pensar duas vezes. Alias, pensando mil vezes sobre toda aquela maluquice que aconteceu minutos atrás.
No caminho para casa, quando tudo parecia estar tranquilo, notou que não lembrava o caminho de casa. Acabou rodando por ruas que não conhecia. Seus olhos começaram a coçar de uma forma tal, que teve que parar o carro. Não sabia o que fazer. Quando pensou em ligar para seus pais, esqueceu o telefone e o rosto deles, rodava a agenda do celular e não batia a lembrança. Quando saiu do carro, no pouco que seus olhos o deixavam ver, reconheceu a casa na qual parou o carro, era a casa da anfitriã. Pensou em sair a pé, mas seus olhos e uma forte dor no abdômen o forçam a cair ao chão. Não bastava seu corpo todo doer, reparou que suas mãos estavam mudando, se tornando magras, seus cabelos começaram a cair na cara, sua voz se tornando mais aguda, e antes de desmaiar, notou sua barriga inchar e um pequeno verme escorrer em um espirro…
Algumas horas depois, a polícia declarou no Cidade Alerta que teve um acidente de gás na residência perto da Av. Eliseu de Almeida e que a dona da casa, a estudante Giovanna Hanz, estava bem e sem ferimentos, ela foi encontrada na frente da casa, chorando muito, e tinha acabado de chegar da casa do namorado, por isso vestia roupas masculinas e perdeu seus sapatos na busca por sobreviventes. Datena diz o seu bordão e vai para os comercias nessa noite de segunda-feira.

Vídeo Moral da História