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Estava parado há algum tempo esperando. Se fossem alguns andares abaixo talvez até resolvesse se desembestar pelas escadas mesmo. Mas onde estava era impossível se atrever a tanto. Que besteira, mesmo que fosse no segundo andar seria difícil que um sedentário como você descesse pelas escadas, pensou consigo mesmo. Ficou algum tempo observando a porta metálica. Permanceia completamente fechada. Já tinha decorado todos os detalhes daquela área. Nenhum risco fugira à sua atenção. Não tinha mais nenhum cravo a ser espremido em seu rosto. Já havia até desistido de continuar se movendo para evitar que a luz no hall se apagasse. O prédio estava um caos aqueles dias com apenas um elevador em funcionamento. Ele costumava ir várias vezes àquele prédio para fazer entregas. Trabalhava em outro edifício, há apenas uns seis quarteirões dali.

Finalmente a porta se abriu. No fundo do elevador estava uma garota. Ele não pôde deixar de notá-la assim que entrou. Usava roupas de grife, estava maquiada e com um perfume. Ah, o perfume. Era inebriante. Tinha certeza que todo o elevador iria cheirar assim por semanas. Iria demorar muito para que conseguisse esquecer aquele perfume. Se é que algum dia realmente conseguiria esquecê-lo. Ele se encostou no fundo do elevador, no canto oposto e olhou de canto de olho para ela. Os cabelos loiros cacheados lhe caíam suavemente pelos ombros. A pele clara como uma boneca. Os lábios carnudos, mas sem exageros. Com certeza era da elite da cidade. Ele deixou a mochila cair despreocupada ao seu lado. Embora estivesse levando ali uma quantia considerável de dinheiro, quem iria pensar em assaltar alguém como ele?

Ela permaneceu encostada no outro canto. Talvez estivesse sentindo medo dele. Era um garoto magro, apesar da estrutura óssea proeminente. Havia raspado o cabelo bem baixo, para esconder o emaranhado crespo. Era muito mais fácil de cuidar do cabelo quando estava assim bem baixo. Além do mais, sempre usava um boné um pouco largo e com a aba bastante proeminente. Largas também eram suas roupas. A bermuda um pouco surrada pelas quedas do skate quase chegava ao tornozelo. A camiseta, que um dia já fora roxa, tampava até uma parte das coxas. Em torno do pescoço trazia um largo cordão que parecia de barbante, de onde pendia um imenso pingente em forma de cifrão. “Só te deixa com mais cara de marginal, garoto”, sua mãe sempre lhe dizia. Ele sabia que era bem verdade. A imagem que acabava passando aos outros era de alguém mal intencionado. Mas e daí? Ele não se importava. Sabia muito bem o que tipo de pessoa era.

Ele reparou que a garota começou a se mexer constantemente. Segurava a bolsa de forma firme. O garoto olhou disfarçadamente e percebeu que ela chegava a apertar a alça fortemente. Também notou que tinha os olhos vidrados nele. Estava inquieta. Dividia o olhar entre o garoto e o marcador dos andares no elevador. Ele sempre se sentia mal com aquilo. Sempre a mesma coisa. Só porque era moreno e usava aquele estilo de roupas as pessoas costumavam confundir isso com um indício de pessoa mal intencionada. Mas não a julgava errado apenas por isso. Com certeza era o meio onde ela havia sido criada que lhe impusera esse pensamento. Talvez ela nem fosse uma pessoa ruim. Apenas tinha se acostumou a desconfiar de todos que tinham um estilo parecido com o dele. Mas não justificava. Ele não era obrigado a passar por aquilo sempre. Até quando?

Começou a pensar em quão engraçado poderia ser se virar para ela e dar um grito, só pra ver a reação da garota. Melhor não brincar com isso. Pela forma como se vestia deveria ser filha de alguém importante. Alguém que poderia ligar na empresa onde ele trabalhava e adeus seu suado dinheiro. Mas a ideia fez um pequeno sorriso passar por seu rosto. Poderia apenas chegar um pouco mais perto dela para ver a reação. Talvez numa dessas, ela até resolvesse saltar alguns andares antes. E se simplesmente puxasse algum assunto? O que ela faria? Talvez falar do clima, como sempre acontece em elevadores. Poderia perguntar sobre a última rodada do futebol, utilizando diversas gírias da periferia, é claro. Isso seria realmente engraçado. Como ela iria reagir?

Em vez disso, apenas limpou a garganta. Foi o suficiente para ver a garota se apertar no canto onde estava confinada. Os dedos do pé dela se cruzando de nervosismo. Apesar de o garoto ter mantido o semblante imóvel, por dentro estava gargalhando. Em quanto será que estão os batimentos cardíacos agora? Como essas pessoas eram previsíveis. O preconceito era realmente imutável. Ele estava apenas trabalhando, mas o que importava realmente era a impressão que passava pela forma como se vestia. Resolveu se divertir mais um pouco com aquelas reações da alta sociedade. Naquele fatídico dia, aquela garota é que foi escolhida para o seu “experimento”.

Abaixou-se para mexer no tênis surrado enquanto corria o olho para a garota. Quase não conteve a risada. Ela apertou os joelhos um contra o outro. A bolsa estava extremamente apertada entre suas mãos. Ele levantou-se e decidiu parar com aquilo. Não fazia o menor sentido continuar fazendo aquela besteira com ela. Essa atitude era igualmente irracional. Aquilo não poria um fim à loucura toda que ele já estava acostumado a passar.

Pegou a mochila que estava no chão e dirigiu-se pra frente do elevador. Continuou de costas para ela, com a porta bem à sua frente. Apenas mais quatro andares e sairiam dali. A pobre garota poderia respirar aliviada. Talvez ela ainda continuasse achando que tinha corrido um sério risco e demorasse muito tempo para entrar sozinha em um elevador novamente. Pelo menos em elevadores que não fossem restritos a moradores de prédios da alta sociedade. Foi quando sentiu algo apertando suas costelas. Algo metálico. Algo cilíndrico e gelado. Olhou para o lado e lá estava a garota segurando um revólver.

Continua olhando pra frente e passa a mochila – disse ela calmamente.

Mas, o que é que…

Olha pra frente, já disse. Isso é um assalto. Passa a mochila e rápido. Eu não estou com muita paciência hoje.

Mas… mas… você? Isso é algum tipo de brincadeira? – disse ele já retirando as alças das costas.

Chega de conversa e me dá logo essa droga de mochila! O que você está pensando? Só porque eu me visto assim não posso assaltar, é? As aparências enganam, garoto.

ASSARIEIRAAAAAAAAAAAAAAAA