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A Trilogia Millennium é um dos meus (mais recorrentes do que eu queria que fossem) casos de comprar um ou mais livros, colocar na estante e esquecer dos mesmo, seja por falta de tempo ou por ter comprado MAIS livros sendo que já tinha um bom backlog. Sendo assim, eu os tenho comigo há anos e nunca li os três do começo ao fim. Quando iniciei o Vol. I: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, acabei pegando A Dança dos Dragões e aí já viu. Crônicas de Gelo e Fogo ganhou rapidamente essa batalha. Enfim…

O autor, o sueco Karl Stig-Erland Larsson ou, como assinava suas obras, Stieg Larsson, era um jornalista, fotógrafo, ativista e, entre todas essas atividades, ainda sobrava tempo pra ser um escritor de romance policial de primeira. Stieg, infelizmente, faleceu aos 50 anos de um infarto, e não teve a oportunidade de ver sua aclamada obra, a Trilogia Millennium, ser publicada (Stieg faleceu pouco tempo depois de entregar os manuscritos dos três volumes).

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A inspiração para iniciar os livros veio de algo um tanto doloroso que o próprio Stieg presenciou: aos 15 anos, ele viu uma amiga ser estuprada e agredida por um grupo de três homens, e se viu incapaz de ajuda-la. Dias depois, ao pedir perdão à ela, ela se recusou a perdoá-lo, e jamais voltou a falar com o jovem Larsson. Essa amiga foi o modelo no qual ele baseou a marcante protagonista da narrativa, e ambas dividem o mesmo nome: Lisbeth.

Esse primeiro volume da intensa saga policial de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander possui um título um tanto intrigante: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres. Esse título (que foi traduzido para inglês, estranhamente, como The Girl With The Dragon Tattoo, embora a tatuagem de Lisbeth pouco tenha a ver com a trama), contudo, tem tudo a ver com a história, que se passa na Suécia, em 2002, e lida com temas como hackers, abduções, jogos da mídia e a caça insaciável por informações.

Após perder e ser condenado em um julgamento por calúnia e difamação contra o multimilionário empresário Hans-Erik Wennerström, o jornalista quarentão Mikael Blomkvist se vê às voltas com Henrik Vanger, outro grande empresário já aposentado, ex-presidente das Indústrias Vanger, que pede a ele que solucione um mistério que o consome há anos e parece não ter uma resposta: o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet Vanger, desaparecida há quase quarenta anos, da qual traço algum foi encontrado desde a fatídica tarde em que deixou de ser vista. Enquanto isso, Mikael ainda tem a pena de três meses de prisão a cumprir e uma considerável quantia que deve pagar a Wennerström. Henrik, aliás, promete como pagamento, caso Mikael solucione o mistério, a cabeça de Wennerström numa bandeja de prata e um valor em coroas que poderia pagar a multa de Blomkvist uma boa quantidade de vezes.

O cenário dessa intrincada teia é dividido entre Estocolmo, descrita em detalhes pelo autor, que viveu praticamente toda sua vida na cidade, com direito à nomes específicos de ruas e lugares; e a ilha fictícia de Hedestad, que basicamente pertence ao clã Vanger, no interior da Suécia. Há ainda outros lugarejos pelos quais os personagens eventualmente transitam, mas são apenas passagens.

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E o papel de Lisbeth nesse entretempo? A nossa anti-heroína trabalha como investigadora particular na Milton Security, num regime freelancer, muito embora Lisbeth não tenha a menor pinta disso: franzina, aparentando ter não mais que quinze anos, vestida sempre com sua fiel jaqueta de couro e rebites, botas com meias listradas de cores diferentes ou um bom jeans todo rasgado, ela ainda ostenta piercings e tatuagens pelo corpo. Mas ela é muito competente no que faz. EXTREMAMENTE competente. E o primeiro contato dela, mesmo que indireto, com o Super-Blomkvist, é exatamente através de uma pesquisa sobre a vida pessoal e profissional do repórter. Lisbeth teve uma infância e adolescência conturbadas, que ela mantém guardadas a sete chaves, que envolvem rumores de prostituição, agressões e passagens um tanto extensas por hospitais psiquiátricos. E o curso das coisas acaba colocando-a para trabalhar com Mikael no Mistério Harriet Vanger.

Mikael, ou Super-Blomkvist (apelido que ele odeia e ganhou com seu primeiro grande furo de reportagem, quando ele mal era repórter), por sua vez, é um titã do jornalismo econômico. Respeitado, e odiado em igual medida por seus adversários, ele não mede esforços para esmiuçar tudo que pode sobre os podres das grandes corporações e dos figurões que povoam o distrito financeiro de Estocolmo. Se Mikael puder expor até a alma de um desses homens, ele o fará e, como diz Erika Berger, ele perde a sensatez quando sente o cheiro de sua presa ferida.

Falando em Erika Berger, ela é a melhor amiga de Mikael desde os tempos da faculdade, há mais de 20 anos. E sua amante. Erika é uma mulher forte, vinda de família rica e tradicional da Suécia, e sócia de Mikael na Millennium, revista que os dois abriram há alguns anos e tem crescido de modo razoável, e que dá nome à série. Erika tem fibra e dirige a revista com maestria. Casada com o artista Lars Beckman, que pouco se importa com triângulo amoroso do qual faz parte, pois o vê com uma mente aberta e, até mesmo, como um aditivo do relacionamento. O casamento de Mikael, do qual ele tem uma filha, Pernilla, em contrapartida, acabou em razão desse triângulo.

E essas são só algumas das criaturas bem escritas que povoam as páginas desse volume de capa negra. Entre eles ainda há Dragan Armanskij, chefe e protetor de Lisbeth e os intragáveis membros da família Vanger, por exemplo.

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres é um livro que pode enganar quem o começa. Os primeiros capítulos ganham momento lentamente, nos levando de modo suave através de seus personagens nas ruas de Estocolmo e na redação da Millennium até que, quando se percebe, a narrativa está correndo desgovernada como um trem em altíssima velocidade, e o leitor não pode e nem escapar dela. Devorei o primeiro volume em pouco tempo e engatei imediatamente sua sequência, A Menina Que Brincava Com Fogo e não me arrependo disso. É triste saber que jamais poderemos ler algo novo vindo da talentosa mente de Stieg mas ele, sem sombra de dúvidas, nos deixou um legado sem precedentes nessa trilogia cheia de suspense, jogos de informação, traços do mundo da mídia e uma das personagens mais apaixonantes e destruidoras que já tive o prazer de conhecer nos últimos tempos.

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