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Meu contato inicial com O Código Élfico, do nosso brasileiríssimo autor Leonel Caldela, foi um pulo de cabeça dentro d’água. Eu nunca tinha ouvido falar do trabalho do Leonel, cuja atuação sempre foi muito forte no mundo dos livros de RPG de mesa, do qual eu, infelizmente, faço pouca parte. Foi num impulso, depois de ver um anúncio sobre o livro, que decidi pegá-lo. “Hmm, códigos, elfos, autor brasileiro… Não há o que temer”. E embarquei numa das jornadas literárias mais alucinantes e sagazes que fiz nos últimos tempos. E agora, vamos ao que interessa.

A saga de nossos heróis, a estranha dupla formada por Nicole Manzini e o Príncipe Élfico Astarte, se inicia em um prólogo que passa da serenidade estoica típica de paragens élficas ao caos e à guerra sanguinolenta em apenas algumas linhas. Ao pulo de um parágrafo, onde Nicole e Astarte treinam com seus arcos, somos jogados no meio de uma batalha desses dois personagens contra um pequeno pelotão vestido de negro, portando fuzis e bombas, e um homem (que mais parece uma máquina mítica de matança), denominado O Dragão. E assim se abre a deliciosa trama, repleta de segredos e meandros d’O Código Élfico.

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Trama, essa, que acompanha a azarada Nicole Manzini, também conhecida como “A Princesa das Conspirações” e “Musa das Lendas Urbanas”, enquanto ela tenta deixar pra trás sua vida e seu passado familiar conturbado (graças ao seu odiado pai, Salomão Manzini) em Santo Ossário, terminando seu mestrado em filosofia numa universidade europeia. Mas as coisas costumam dar errado em uma proporção muito maior do que elas dão certo na vida da protagonista de óculos, e ela logo se vê às voltas com seitas ocultistas, assassinos seriais, rituais bizarros, um mercenário ruivo e bigodudo chamado Félix, elfos de laboratório, arcos, flechas e megacorporações centenárias.

O cenário que liga todos esses fios numa tapeçaria é Santo Ossário que é, como diz nosso autor, “uma cidade que poderia ficar no interior de qualquer estado”, cidadezinha cujas origens remontam às missões jesuíticas, e que conta até mesmo com uma ruína de um dos mosteiros desses religiosos. O lema dessa pacata localidade interiorana, cujo único momento de brilho é o Festival Anual de Cinema, quando estrelas de todo mundo vêm até Santo Ossário, é “A cidade para onde todos voltam”. Fato muito infeliz para Nicole, que sempre tentou deixar sua cidade natal para trás, por conta de seu passado repleto de trevas e sangue. Além de Santo Ossário e seus arredores campestres, parte da história se passa em Arcádia, o mundo paralelo dos elfos, governado pela deusa da raça e mãe de Astarte, cujo nome você só saberá se mergulhar nas páginas desse thriller cheio de fantasia. Arcádia é retratada como a versão onírica e perfeita do nosso mundo, que é um espelho da dimensão élfica. Um espelho muito torto e pobre, diga-se de passagem.

E falando nos elfos… Esses amados seres místicos sempre instigam a curiosidade de leitores, gamers, RPGistas e qualquer outra vertente do público que consome cultura pop. Vindos da milenar e sólida mitologia nórdica, o povo das orelhas pontudas eram inicialmente retratados como seres dotados de poderosas capacidades mágicas e com uma certa ambivalência ao que se diz respeito aos humanos e outras raças com as quais eles coexistiam, podendo tanto ajudar quanto atrapalhar quem quer que fosse, embora procurassem sempre manterem-se neutros. A raça pintada por Caldela, no entanto, se assemelha muito mais aos mitos anglo-saxônicos dos alps, criaturas malignas e degeneradas que usavam humanos como escravos e gado. Eles são, de um certo modo, selvagens, embora ainda possuam parte da erudição e refinamento de outrora. São sanguinários, inescrupulosos, e a única vontade desses imortais é invadir a Terra e tornar a civilização humana um grande campo de batalha e uma fonte quase infindável de escravos e brinquedos mortais. Vale a pena notar, quando o autor começa a relatar as origens e os tempos antigos do povo élfico, a influência da filosofia e das artes orientais neles.

E já que chegamos aos elfos, vamos apresentar nossos personagens. Nicole Manzini, que já apresentei previamente, é uma moça na casa de seus vinte-e-poucos anos. Tudo pelo que ela já passou a tornou uma garota um tanto cética frente a vida, e para ela não existe acaso. Tudo de errado que acontece à sua volta, ela mesma garante, é culpa sua e de algum tipo de maldição bizarra que paira sobre sua cabeça. As mais absurdas lendas urbanas tomam forma quando Nicole está por perto, e seus namorados e amigos acabam pagando o preço, seja por forma de uma ou outra decapitação ou um incêndio inexplicável. Nicole, contudo, é extremamente sagaz e inteligente, mas pode de ser um tanto ácida, sarcástica e extremamente teimosa.

Astarte, o príncipe dos elfos, é uma figura peculiar. Filho da deusa de sua raça, o papel dele é abrir alguma espécie de portal, através do qual seus súditos irão iniciar a invasão de Santo Ossário. Treinado desde a tenra idade para ser o guerreiro exemplar e o arauto da deusa na Terra e em Arcádia, Astarte domina a poesia, a luta corporal, as belas artes e, acima de tudo, o tiro com arco. Por ser um elfo e nunca ter tido contato com a cultura terrena, o Príncipe é muito curioso e até mesmo ingênuo e, quando se vê às voltas com Félix e Nicole, começa a ter que interpretar seus sentimentos e aprender valores e o modo como os humanos pensam e enxergam o mundo.

O mercenário andante, Félix Kowalski é, por sua vez, um tanto sem noção, lembrando até um pouco o Deadpool. Grandalhão, dotado de um glorioso bigode ruivo, ele aparece inicialmente como um fã obsessivo e perseguidor de Nicole, do qual ela tenta se livrar (ao menos até perceber que ele é quase tão persistente quanto uma etiqueta colada em vidro). Perito em combate com armas e em algumas áreas um tanto esquisitas, Félix termina por se tornar um precioso aliado e amigo de Nicole, que ela passa a enxergar como um irmão mais velho (e meio estranho) com o passar do tempo. O ruivo não hesita em partir pra cima dos inimigos com uma granada na mãe e fazer piadinhas impertinentes do meio das lutas.

Por fim, Emanuel Montague. Ah, Emanuel. Um dos meus vilões favoritos dos últimos tempos (embora ele seja um pouco cliché, isso faz parte do charme dele como antagonista). Ele é calculista, frio e, de certa forma, encantador. Emanuel galgou sua vida através das Indústrias Strauss, que são os donos de Santo Ossário, e tem plenos poderes para seguir com seus planos do modo como desejar. Há, ainda, a rainha-deusa dos elfos, em sua infinita beleza, mas as vontades dela são canalizadas através de Emanuel e, até certo ponto da estória, ela é apenas uma ameaça iminente que ronda tudo.

Os outros personagens, habitantes da cidade para onde todos voltam, são deveras interessantes. Diria até mais, icônicos, muito reconhecíveis para qualquer um que já tenha estado em uma cidade interiorana. O delegado, o dono da imobiliária, a moça da lojinha de presentes, o insano pai de Nicole, Salomão Manzini que, mesmo quando não está fazendo nada, ainda dá um certo medo, e o irmão mais novo de Emanuel, Abel, personagem ao qual muito me afeiçoei. Ele é divertido e parte o coração ver como as pessoas o tratam com incompreensão e desdém.

Esse livro é uma história, primariamente, sobre a força do ser humano e sobre força de vontade, e como nossas características e instintos mais profundos podem mover montanhas quando nos juntamos e trabalhamos em prol de uma meta comum. Mas é também sobre assassinatos rituais e a dominação de raças. O modo como Leonel pega o mito dos elfos e os transforma em criaturas que perderam sua glória e se viram reduzidos a meros predadores foi, ao menos para mim, um dos pontos altos da narrativa. Eu, pessoalmente, senti que certas partes foram corridas e ficaram meio far-fetched, pouco críveis. Alguns dos personagens também acabam caindo em arquétipos meio batidos, especialmente Nicole e Félix.

Isso, contudo não tira o brilho dessa história, que me prendeu de um modo muito intenso até o fim. Eu queria saber, a qualquer custo, qual seriam os destinos daqueles personagens que, juntos, formavam uma equipe tão diferente e qual seria o fim da guerra entre humanos e elfos. Caldela deixou que o mundo e a criatividade fluíssem por ele, como um guerreiro élfico o faria, e não parou por nada para criar personagens carismáticos e um mundo encantador. Além disso, me interessei muito pelas ideias que Leonel utilizou para a justificativa de Arcádia, pegas do filósofo Platão, sobre um mundo perfeito de ideais, sem erros, que seria uma representação utópica do nosso mundo distorcido e cheio de falhas.

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O Código Élfico desconstrói um mito antigo da cultura e da literatura, e o reconstrói de uma forma muito criativa, além de levar a narrativa em um ritmo de tirar o fôlego. É, sem dúvida, mais um dos novos clássicos da literatura nacional surgida nos últimos anos, e depois dele espero por muitas obras do Leonel, além de ter me interessado por ir atrás das que ele já possui publicadas.

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