Dragões de Éter foi um livro que chegou às estantes das livrarias sorrateiramente, sem muito alarde fora da comunidade leitora. Instalou-se, volume a volume até formar um box (muito bonito, por sinal, puro capricho da Leya). E, se você passasse por ele sem saber o que era, talvez até dispensasse como só mais uma série de fantasia como, admito infelizmente, fiz por algum tempo. Até que, certo dia, navegando pelos bravios rios e corredeiras das interwebs, recebo um e-mail com uma oferta exclusiva do supracitado box de Dragões. Comprei. Ah, e que aquisição feliz foi essa. By the way, por ser um livro que contém muitas alusões pode haver spoilers nos próximos parágrafos. São meio inevitáveis, mas vou tentar controla-los.

Raphael Draccon, nosso querido autor e roteirista, aparenta ser um tanto jovem para tanto talento acumulado. Seu estilo é fluido, jovial, muito mais cotidiano e acessível do que o que se costuma encontrar em obras desse nicho; talvez isso contribua pelo fato de a leitura de Dragões ser tão mágica, divertida e tensa ao mesmo tempo. Draccon sabe como puxar o leitor pela gola da camiseta e leva-lo onde quiser, saltando de uma cena idílica para uma sangrenta batalha como poucas pessoas sabem fazer. Quando você acha que está no meio de um campo de lírios, uma espada passa zunindo e arranca sua orelha. E você nem vê.

Desde o começo, caso você seja observador, é possível ver um dos principais traços da saga do mundo de Nova Ether: referências e alusões. Nomes de personagens, lugares, frases… Albion, Lilliput, Sherwood, Oz, Rainha Terra… Rainha Terra Branford me ganhou por ser referência da minha franquia favorita ever, Final Fantasy. Se houvesse apenas “Terra Branford” escrito grande, uma única vez por página, em todas as páginas dos três volumes, ainda assim eu teria lido tudo. Voltando ao foco, o modo (nem sempre) sutil como o autor liga tantos elementos da cultura pop é incrível, e tudo inserido num contexto que faz sentido, sem que as coisas fiquem ali como se fossem puro fanservice, desconexas.

Aliás, a amarração de coisas que, inicialmente, parecem desconexas é uma das características interessantes dessa história. O mundo tecido de modo rápido e vigoroso pelas palavras do Raphael junta não só cultura pop e alusões mais modernas. Ele faz uso de um elemento que, até alguns anos atrás, estava quase perdido para a geração atual e a próxima: contos de fadas. Eu particularmente lembro de ter lido (ou, como acredito ser o caso da maioria, cantado e assistido junto com as versões da Disney) todos eles. Agonizei o sufoco de Branca de Neve junto dela, senti o terror de Belle ao ser encarcerada no lar da Fera, imaginei o terror da Chapéu ao ver sua vó ser comida viva por um lobo desgraçado gigantesco. E não me venham com bolodórios de que contos de fada eram coisas só das garotas. Todos nós vimos, todos nós conhecemos de cor, todos nós gostamos. Fazem parte do que somos e ajudaram a construir nossas infâncias.

O mundo de Nova Ether, onde se passa nossa aventura, é um mundo feito por magia e sonhos. Assemelhando-se ao que ocorre com Zanarkand em Final Fantasy X, o mundo existe pela vontade de um Criador, um semideus filho de grandes deuses, e suas várias  epresentações materiais, os Avatares (comumente conhecidos pelos novaeterianos por “Fadas”). Através do poder da crença dos homens no Criador e nas Fadas, eles podem imaginar e moldar o mundo e este, por sua vez, permanece até que o Criador deixe de sonhar. Esta é uma das várias analogias e metáforas utilizadas na narrativa, o poder da fé humana em si mesma e no universo.

Nova Ether
Nova Ether

Logicamente, em um mundo com centenas de séculos de existência, nem tudo são rosas. O poder corrompe. E quando ele é muito grande, é difícil resistir. E as próprias Fadas foram seduzidas pela magia que possuíam, com a qual deveriam ajudar na regência e no equilíbrio do mundo. E algumas delas tornaram-se corruptas e malignas, e assim nasceram as Bruxas. E assim também foi o alvorecer da magia negra, que quase subjugou a magia boa e instaurou o caos, sendo apenas aplacada ao custo de mares de sangue. E agora, depois das Guerras das Fadas, o mundo encontrou a paz por algum tempo.

Bom, como falei da Chapéu ali atrás (sim, Chapéu, ela é minha buddy), é com ela que nossa história se inicia. Seu nome na história é Ariane Narin. A parte do Chapéu, do maldito chapéu vermelho, é um ingrato apelido herdado pela Srta. Narin depois do fatídico dia em que o lobo estúpido devorou sua vó. E teve um rombo aberto no peito por um tiro certeiro da espingarda de um intrépido caçador que passava pelas ermas bandas onde a vó da Chapéu, sabe-se cargas d’água por quê, decidiu morar sozinha. E aconteceu que o sangue do lobo espirrou todo sobre a pobre da Ariane, transformando seu chapéu, originalmente branco, em uma peça rubra que jamais recuperaria a cor original.

Mas Ariane não é a única personagem do cativante rol que o autor cria ao longo das páginas dessa história que parecem ser poucas para tanta coisa boa. Para começar, temos Axel e Anísio, príncipes do poderoso reino de Arzallum. Axel, apesar de sua nobre aparência e educação é o típico príncipe que quer descobrir o mundo além das muralhas da cidadela, andar em meio ao povo e sentir na pele o que passam as pessoas que um dia serão seus súditos. Axel é um ás de uma forma de pugilismo particular à Nova Ether, o boxing, que consiste em girar o braço três vezes num círculo e acertar um soco o mais forte possível no punho do adversário. O povo de Nova Ether possui até mesmo um torneio ao redor desse esporte, que traz pessoas de todo os cantos e continentes para assisti-lo.
Anísio, por sua vez, é um tanto mais centrado e comedido que seu irmão popular e assemelha-se muito aos modos do pai, o Rei Primo Branford, filho de trabalhadores rurais que tomou parte nas Caçadas de Bruxas e tornou-se monarca. Anísio, contudo, está preso em uma pele de sapo e tornou-se ermitão. E deixemo-lo com essa sua referência à Chrono Trigger, pois seu papel será desvendado por quem ler a história.

E, como já falei do pai, vou falar da mãe, a Rainha Terra Branford. BRANFORD. Eu adoro esse nome. Terra é uma fada, pura nobreza, finesse e poder mágico (embora ela tenha abandonado grande parte do poder de seu Avatar para encarnar em um corpo mortal e casar-se com seu eterno amor, Primo Branford). Terra é uma suserana justa e, ao lado de seu marido, conduz Arzallum com mãos firmes, mas suaves.

Para completar nossa lista de personagens principais, temos João e Maria Hanson. Sim. João e Maria. Embora aqui eles não tenham saído das garras da bruxa tão sem arranhões quanto na história original. A insidiosa Babau lançou um feitiço sobre os dois, fazendo-os enxergar tijolos como pão-de-ló, vidro como caramelo e madeira como chocolate, e as duas crianças quase morreram nessa enrascada, engolindo lascas de vidro e farpas de madeira. Por fim, deram um jeito de jogar a maldita dentro do próprio caldeirão e fugirem sem verem pra onde, até que seus pais, desesperados, encontram os dois vagando no meio da floresta, durante a noite.

Ilustração da Ed. Mexicana de "Caçadores de Bruxas" (com João e Maria, o navio de Gancho e Ariane com seu traje vermelho)
Ilustração da Ed. Mexicana de “Caçadores de Bruxas” (com João e Maria, o navio de Gancho e Ariane com seu traje vermelho)

E é com esses personagens, inicialmente tão cheios de tragédias e dor, que passamos o nosso tempo em Nova Ether. Poderia ainda citar outros, como a Princesa Branca, o Rei Alonso Coração-De-Neve, o temível Imperador Ferrabrás e a sombria Beanshee, que vaga  horosa pelas páginas, prenunciando a morte e a dor. E eles crescem aos poucos, visivelmente, enquanto acompanhamos suas lutas, alegrias e medos. O desenvolvimento de João e Ariane, particularmente, é mais profundo, talvez por serem os personagens com maior amplitude psicológica ou por terem espaço para tal, pois ainda são jovens, embora certa fase da construção do João tenha sido meio corrida devido às circunstâncias da história. Poderia ter rendido muitos capítulos bons. Mas isso não tira o brilho deles e dos atos subsequentes, em que surgem bandos de ladrões, piratas sanguinários, um torneio de boxing, e um mal que emerge lentamente das profundezas do passado dado como enterrado pelos nova-eterianos.

Uma coisa que me surpreendeu em Dragões de Éter é o modo como tudo começa com um tom leve e juvenil e se torna denso e mais sério com o tempo. O estilo de Raphael se define a cada linha e a cada palavra se torna mais consistente e poderoso. Os personagens se veem, pelos acontecimento de seus passados e as relações que travam uns com os outros, arrebatados em turbilhões inexoráveis dos destinos de cada um. Enquanto o autor vai nos apresentando com sagacidade os antagonistas dessa trama tão cadenciada, elaborando os obstáculos e as labutas pelas quais os personagens passarão, a história vai adotando um tom mais sombrio e frenético. Como disse anteriormente, Raphael Draccon escreve bem tanto as cenas de humor quanto as de drama e batalhas, que podem ser viscerais e sanguinolentas como eu não imaginaria se julgasse apenas pela capa e sinopse. Ler Dragões de Éter foi como ler O Ciclo da Herança, pois a evolução do autor em ambos de um tomo para o outro é palpável.

Os livros são, ouso dizer acima de tudo, uma amálgama de várias reflexões e ideias propostas pela autor. Pensamentos sobre a ignorância do homem ante a vida e a natureza, o desenvolvimento de caráter e o peso de escolhas perante as adversidades e o valor de uma boa amizade ou uma forte paixão. Tudo isso em diálogos que não são maçantes. Pelo contrário, o modo como o livro se comunica com o leitor é ágil, contemporâneo. E, talvez, seja exatamente por isso que é tão simples se identificar com a narrativa apresentada de um modo pitoresco por Raphael que, como diz Pascoal Soto, editor dos livros, é um bardo do nosso tempo.

Bardo, esse, que consegue nos fazer rir, ficar tensos e chorar a perda dos personagens queridos sem sequer percebermos; que garante que levaremos essa maravilhosa saga conosco por muito tempo.

Dragões de Éter - Box com 3 Volumes
Trilogia Dragões de Éter
Autor: Raphael Draccon
Editora: Leya Brasil
Categoria: Literatura Fantástica

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