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Olá hominídeos renegados, bem vindos a mais uma coluna Nada Disso!

Hoje vou tomar a liberdade de falar quais as minhas impressões sobre o ofício que exerço e a realidade de encarnar uma das profissões mais essenciais da humanidade, o “Professor”.

Adianto que não vou me ater a questões da desvalorização desta profissão ou mesmo tentar gerar aqui uma solução para a educação do país, vou apenas expor minha experiência nestes curtos 2 anos que leciono. Então, vamos lá?

Para quem acompanha o nosso podcast, não é novidade saber que eu era um profissional da saúde até 2009 e trabalhei no CCZ ( Centro de Controle de Zoonoses) de minha cidade. Era um trabalho bacana, onde eu aprendia muitas coisas e estava na minha área de formação. Mas, infelizmente, como servidor público e não como biólogo, a perspectiva de evolução profissional era mínima e, basicamente, meu conhecimento na área de ciências biológicas não me agregavam quase nada. Muitos dos que trabalhavam comigo estavam fadados a cair no conformismo que o emprego público gera em algumas pessoas, um fato que sempre me incomodou muito.

policial-de-pe-na-portaAssim resolvi (bem naquele esquema: “por que não?”) fazer o concurso para professor do Estado de São Paulo. Pensava em pegar poucas aulas a noite, para ir me adaptando com a ideia, e me manter durante o dia no CCZ. Mas, obviamente, isso não era possível e minha entrada na educação foi bem “Pé na porta, e escopeta na mão: seja o que Deus quiser!”.

A princípio eu tentei limpar a minha mente quanto à recordação que eu tinha dos professores. Fossem bons ou ruins, cada um tinha sua forma de lecionar e eu queria ser verdadeiro, o Rafael Professor. Admito que a ideia meio que me frustrou no início. Lembro que na faculdade, eu e alguns amigos sempre falávamos:

“Se nada der certo, nós podemos dar aula!”

E essa é a realidade. Muitos acabam escolhendo a carreira de professor porque não conseguiram se manter no meio acadêmico e não conseguiram trabalhar na área. Mas, uma vez que você está lá, você tem que enfrentar a labuta, entrar em uma sala e tentar fazer com que quase 40 pessoas prestem atenção no que você tem a dizer e entendam que, de alguma forma, aquilo fará diferença na vida deles. Sendo bem sincero, não é nada fácil!!

Quando você vai para o trabalho, por mais que você faça sempre a mesma coisa, o que vai rolar no seu dia é sempre uma caixinha de surpresas mas, caro leitor, quando se é professor, eu garanto: isso é potencializado absurdamente!! Imagina a situação de estar com várias pessoas que podem estar felizes, tristes, apaixonadas, sozinhas, com vontade de jogar merda numa meia e rodar, com vontade de ver alguém colocando merda numa meia e jogar… enfim, para resumir, que querem e que não querem estar ali. Das muitas experiências que tive, acho que gostaria de levantar duas em especial que resumem o que tiro dessa experiência profissional:

VOCÊ NÃO SABE QUEM SOU EU!

Tive pouquíssimas desavenças no meu primeiro ano como professor, mas uma que não sai da minha cabeça foi uma em que, por causa de música, acabei batendo boca com o aluno (uma coisa é o cara ouvir outra é achar que está num show).

Eu procuro sempre utilizar o pensamento lógico, levando o aluno a refletir que aquilo que ele está fazendo não condiz com o mínimo do aceitável para uma vida em sociedade mas o garoto, aparentemente alterado, resolveu bater boca comigo e, quando convidado a se retirar da sala, lançou o “Você não me conhece! Eu tenho essa cara de bobo, mas não sou bobo não!” Eu não sabia se eu ria da forma como ele mesmo se denominava ou prestava atenção naquela tentativa de ameaça.

Olha, caras mal-encarados sempre existiram e sempre existirão mas o problema agora é a cultura bandida que reina. Ficou bonito ser usuário de drogas ou bandido e hoje uma das coisas que me faz temer o caminho que as coisas estão seguindo é esse efeito Zé Pequeno em guris que possuem uma esperteza que seria de tirar o chapéu se fosse bem aplicada.

“Nesse momento eu pensava… Que que eu tô fazendo aqui?”

OBRIGADO, PROFESSOR… ENTREI NUMA FEDERAL!!

A segunda situação que jamais pensaria que viveria em meu primeiro ano lecionando foi quando uma aluna, no Facebook, homenageou a mim e a outros colegas após saber que passou no vestibular de uma universidade federal. É hipocrisia dizer que temos convicção que nossos alunos estão preparados para enfrentar os vestibulares somente com o que levam do Ensino Médio mas algumas pessoinhas muito especiais nos fazem rever essa máxima.

O que me emocionou foi que ela se sentiu na obrigação de dizer que a forma como eu e alguns colegas falamos de nossas disciplinas, mesmo quando a matéria era difícil, fazia, por um instante, com que aquilo se tornasse compreensível e que ela lamentava ter tido apenas um ano de aula comigo. Cara, sério, eu me aguento pra não desbundar a chorar toda vez que ouço isso.

Meu orgulho foi além ainda ao saber que ela tinha ingressado na área da saúde.

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Agora eu compreendo porque esses homens e mulheres heróicos não desistem. Existe, no meio das gritarias, traquinagens e algazarras, uma pessoa que cria uma imagem de você como um mestre, alguém que lhe passa o conhecimento.

Bem, estou longe de me colocar como um professor exemplar, aliás, muito longe disso. Na verdade pretendo, um dia, parar de lecionar. Não é minha vontade me aposentar nessa profissão que eu talvez faça razoavelmente bem mas, em dias como os ilustrados pelas fotos colocadas neste post, onde fiz uma atividade extra sala com meus queridos alunos do 3º D (recado para as demais salas: sem ciúmes rs) eu me sinto capaz de mudar de ideia a qualquer momento, porque se tem algo que eu adquiri sendo professor, é a consciência que somos todos alunos uns dos outros…

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Até mais amigos!
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