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Normalmente falamos de certos artistas quando alguma data próxima a eles está próxima ou algo parecido. Hoje vou falar de um simplesmente por ele ter sido foda. Nos dias de hoje onde o funk toma conta das periferias, é raro ver essa galera escutando o que se escutava antigamente. Não músicas com foco em ostentação com carros, correntões de ouro de R$ 20.000,00 ou mulheres nuas fazendo tudo o que se imagina. Nem músicas que falam de criminalidade e incitam provocações as autoridades. Refiro-me à época em que a música, mesmo nos lugares mais difíceis, significava algo e possuía conteúdo focado na realidade e não na fantasia e dinheiro. Houveram muitos bardos cada um dentro de seu próprio estilo. Sou muito fã do Rock & Roll mas também ouvia o bom e velho Rap e Hip-Hop. As influencias do lugar onde morava e escola tiveram bastante efeito, só que na época o que gostávamos de ouvir tinha pouco a ver com o que rola hoje. Na escola era comum no horário do intervalo nos reunirmos para cantar Racionais MC’s e Facção Central. Estranho? Não para a gente. Uma por que era achávamos que havia estilo em mandar as rimas rápidas e com ritmo e duas por que as letras eram nada menos do que a realidade. Ressalto músicas como Vida Loca parte 2 e Negro Drama, ou Não Pedi pra Nascer, mas hoje vou falar um pouco de um dos caras que começou com tudo isso.

Durante o início dos anos 90, houve um Rapper americano que ficou conhecido no mundo inteiro não por sua grana ou por suas rixas com outros grupos mas por contar o que realmente acontecia em suas letras, tratando da situação da sociedade, sobrevivência no gueto e igualdade social e racial. Durante o início de sua vida teve o nome de Lesane Parish Crooks, mas foi rebatizado mais tarde como Tupac Amaru Shakur, conhecido no mundo como 2Pac.

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Para alguns ele foi o maior Rapper de todos os tempos. É tido como lenda e mito e muitos dos atuais fodões do Rap mundial eram iniciantes na época dele.
Sua origem não é diferente do que a maioria das pessoas imagina, teve uma infância humilde rodeado de ex-menbros do Pantera Negra (incluindo a sua mãe). Ameaças policiais, roubos, protestos e assassinatos não eram raros para ele. Conseguiu frequentar boas escolas durante a infância e pré-adolescência sempre tendo um talento natural para a arte. Atuou em peças escolares e grupos pequenos mas se destacava nas apresentações bairristas de Rap, que eram comuns nas periferias de Baltimore, onde passou boa parte do seu tempo. Quase sempre ganhava. Foi em Marin City na California que o agora Jovem Tupac se envolveu com tráfico de drogas e acabou saindo da casa da mãe, morando então de favor com amigos. Foi com o Digital Underground, trabalhando como Roadie e Dançarino de palco que teve a chance de mostrar a que veio. Depois disso em conjunto com o Underground lançou seus primeiros álbuns e começou a fazer sucesso com suas rimas sinceras. Me Against The World, foi o primeiro álbum que estourou a carreira dele, isso tudo enquanto cumpria pena na prisão por agressão sexual. A música Dear Mama, chegou ao topo das paradas da Billboard.

Após ser solto com ajuda do dono da gravadora Death Row Records, começou a lançar seus próximos trabalhos através deste selo, como uma forma de pagamento. O Sucesso foi inevitável. Como principal artista da Death Row, ao lado de Dr. Dree e Snoop Doggy Dogg, Tupac colocou-se nas paradas com quase todas as músicas que lançara. Apesar de ter assumido uma maneira mais “festiva” de escrever, suas letras ainda transpareciam o mundo como ele era e talvez por isso não só os home boys das quebradas se identificavam mas todos que ouviam em algum momento.

Eu não vejo mudanças. Tudo que eu vejo são rostos racistas.
Ódio desenfreado que traz desgraça pras raças temos abrigo.
Eu me pergunto o que é preciso para tornar este
Um lugar melhor…
Vamos apagar os vestígios.
Tirar o demônio das pessoas, elas vão agir certo.

Esse é um trecho da música Changes, que ilustra um pouco da “Situação Racial” nos States e que de certa forma permanece até hoje.

Como todos sabem, Tupac Shakur foi assassinado em Las Vegas no ano de 1996 com apenas 25 anos. Ao sair de uma luta de Mike Tyson contra um outro cara, estava no carro junto com o dono da Death Row, quando um carro parou ao lado e disparou 12 tiros tendo 4 atingido Tupac. Após a entrada no hospital, ele foi submetido a diversas cirurgias mas depois de 6 dias resistindo, acabou morrendo decorrente de uma hemorragia causada pelos ferimentos. Muitos especulam que o assassinato foi ordenado por ex-membros da Death Row, e outros dizem que o ato foi ordenado por Notorious B.I.G., outro grande ícone do Rap com quem Tupac mantinha uma grande rivalidade.

Tupac Shakur foi de fato um grande Rapper, talvez sim, o melhor. Mas o importante é dizer que o estilo de música mostrado por além de pioneiro na época, mostra que por mais que uma pessoa possa ganhar poder e dinheiro, ela jamais deve esquecer a própria origem e seus ideais, e mais do que isso deve se lembrar que o mundo como está, pode realmente ser uma completa merda para aqueles que não tem recursos para evoluir, mas que cada um faz as suas próprias escolhas para o bom ou para o mal caminho e que se quisermos ver uma mudança significativa, devemos fazer a nossa parte, artística ou socialmente. Acredito que não só ele como outros gênios pregaram essa filosofia e infelizmente poucos estão vivos. Quando ouvi um cara parando a “ostentação” aqui na vizinhança para tocar God Bless the Dead, vi que ainda há pessoas que valorizam o trabalho desses que ajudaram a moldar uma geração.

ERIC_ASS