Primeira vez lendo Nove Dragões? Veja os primeiros capítulos abaixo 😀
[NOVE DRAGÕES: PRÓLOGO]
Boa Leitura! o/

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Ele sabia que já era noite. Os ferreiros não batiam mais seus malhos, as cabras estavam em seus cercados e a taverna soltava tanta fumaça quanto havia pelo céu em si. Os dias andavam mais curtos ultimamente. Era praticamente impossível separar o momento entre o meio-dia e o anoitecer e, para uma criança, isso era uma mera condição do tempo.
Nogard era um garoto grande para sua idade, tinha cabelos curtos e negros, vestia uma capa e um colete tão surrados quanto podiam estar antes de rasgarem por completo, e carregava dois elmos, algo estranho para uma criança carregar com tanta pressa.
Passou pelas ruas estreitas perto da Taverna do Velho Lumber-meio-nariz. Caminhava com dificuldade pois os dois elmos que carregava eram muito maiores do que ele achava que fossem. Tropeçou umas três vezes antes de colocar um deles na cabeça, o chão ainda estava meio barrento pelas chuvas, ou empata-ferros, como Merlon as chamava. Os ferreiros da província de Ferro Forte odiavam a chuva. Diziam que, enquanto chovia, espíritos das águas enchiam os ares com sua presença e enfraqueciam as espadas. Fazer uma boa espada durante um temporal era tão raro quanto ver um Dragão.
Quando o garoto passou pela taverna já estava todo ralado, cansado e enlameado, com um pensamento na cabeça:

Você me paga, Marwen! Por que eu tenho que buscar isto? Se Merlon me pega, estou frito!

Nogard tinha dez anos e nascera durante a Última Grande Guerra, mas não era um Guerreiro por Nascença, esse prestígio era conferido apenas aos guerreiros de Pontas de Lanças. Sua mãe era uma costureira de Chifre do Dragão e seu pai, um ferreiro de Ferro Forte.
Durante a batalha, após a debandada dos Dragões, todas as mulheres foram enviadas para o norte, para ficarem em segurança na cidade de Elmo de Gelo e foi ali que ele nasceu, a vários dias da batalha, portanto não era agraciado pelo Nascimento da Batalha. Sua mãe veio para Ferro Forte quando ele tinha apenas dois anos e, infelizmente, era uma viúva.
Nogard não conhecia nada além dos campos, das muralhas de Pescoço dos Homens e do Rio de Ferro. As histórias que o decadente Merlon lhe contava eram as únicas informações que obtivera de todo o reino de Andor, e eram contadas sempre às escondidas de sua mãe, Serena, que abominava as guerras e todas as peças que a vila produzia para o reino. Levaram tudo aquilo que lhe era mais precioso e lutaria para que não ocorressem novamente.
Nogard chegou ao limite da vila. A fumaça da Taverna ainda estava muito volumosa, o que queria dizer que não era muito tarde. Havia um bosque de onde os ferreiros buscavam lenha e ele entrou em meio a tropeções e choramingos. Nogard conhecia bem aquele bosque, buscava lenha ali por muitas vezes durante o dia, era o ajudante do ferreiro mais velho e pobre de toda Ferro Forte.

7047_10201607667220345_1070175965_nCaminhou até uma clareira rodeada por longos pinheiros e então viu sua adversária. Estava sentada sobre uma pedra coberta de musgo, debaixo de uma árvore tão volumosa que podia dormir nos aposentos de seu tronco. Tinha os joelhos próximos ao queixo, com uma cara que revelava a sua impaciência. Entretia-se cutucando algumas folhas secas com um galho, quando viu o garoto se aproximar.
– Nossa, pensei que não vinha mais! Você demorou tanto que quase comecei sem você! – esbravejou Arwen, emburrada. Saltou da pedra e caminhou em direção a um saco que Nogard não tinha visto até então.

Pelos dragões, ela trouxe aquilo tudo?

– Arwen, estava pensando melhor e acho que não devemos fazer isso… – disse Nogard, coçando a cabeça.
– Do que esta falando Nog? Planejamos isso a dias! Estou com muita energia e, além de tudo, devolveremos isso ao velho Merlon antes dele terminar sua caneca de cerveja. – disse Arwen fuçando no saco sujo.
Nogard era dois anos mais novo que Arwen e isso em nada o agradava. Queria parecer um homem feito e não fazer aquilo naquela noite parecia ser uma atitude bem adulta.
– Mas eu conheço ele, Arwen. Ele sabe tudo o que tem ali, cada elmo cada espada…
– Lanças. – disse Arwen.
– O que você quer dizer com…
– Lanças! – gritou Arwen e arremessou uma lança de madeira e ferro aos pés de Nogard.
Invadir a fundição de Merlon e roubar seus itens eram problemas o bastante para Nogard, mas ver os desenhos nas lâminas das lanças e reconhecer que eram as encomendas de Lord Grum, senhor de Pontas de Lanças, foi assustador.
– Espere Arwen, você não entende, essas lanças são…
Seus choramingos foram interrompidos pela primeira estocada de Arwen. Rapidamente, Nogard rolou por baixo da arma e pegou a sua. Não era a primeira vez que faziam treinos com lanças, apesar de galhos com lâminas de folhas não serem a mesma coisa que as grandes lanças dos Guerreiros por Nascença. E ele percebeu isso no momento em que pegou a arma.
– Ei, isso está pesado demais, não consigo nem levantá-la! – disse, tentando equilibrar a lança com a maior firmeza possível.
Arwen estava com um sorriso que Nogard sabia ser de brincadeira.
– Não acredito que vai fugir, ainda mais lutando contra uma garota, por acaso é alguma espécie de Covarde Alado? – provocou Arwen, referindo-se ao nome pelo qual os Dragões de Andor eram conhecidos.
– Em primeiro lugar, os Dragões não são covardes! Merlon me disse que eles tiveram um motivo para não lutar, um motivo que os homens não entendem – disse sorrindo e colocando o enorme elmo na cabeça – e, em segundo lugar, não fujo de meninas…
E começaram a lutar, o que era um pouco demais para uma menina de doze anos e um garotinho de dez. Os risinhos e os choramingos faziam mais barulho do que as lanças, os elmos, e os escudos de folhas.
Arwen lançou a arma em direção aos pés de Nogard mas ele deu um pequeno salto, escapou do golpe e correu de encontro à amiga, tentando abarroá-la com o escudo, a fim de desequilibrar a garota. Com a lança pesada e o elmo grande demais, a manobra funcionou mas ele perdeu seu escudo.
Caíram rindo sobre o macio musgo da pedra. Uma chuva de folhas, que outrora fora o escudo de Nogard, caía sobre eles, e a lança perfurou a árvore tão rapidamente que fez ela vibrar, derramando mais folhas sobre eles.
Mas Nogard não sabia o que espantava mais, o fato da lança arremessada ter balançado uma árvore tão grande ou o fato do velho Merlon estar parado ao lado do saco de equipamentos com sua caneca de cerveja na mão e uma cara de poucos amigos.

AssMarco